Converso com ele esta noite
Converso com ele esta noite, como o fazemos sempre, antes de dormir. E então surge, no olhar do companheiro, uma ausência que me cala.
- Sabe- digo eu- a Laurinha mudou de namorado de novo! Não sei o que ela pretende, trocando assim de homem! E esse último era tão bom rapaz! Um dia ele me trouxe de presente uma orquídea. Para a melhor sogra dest
Não há cumplicidade, ou resposta para minhas queixas. Em silêncio ele me grita apenas distância. Mudo de assunto. Provoco-o. Ele não gosta que falem da irmã.
- Bonitas as cortinas, não acha? A Bebel costura muito bem. Sua irmã é mesmo prendada... se pelo menos soubesse ganhar dinheiro com isso. Tanto talento desperdiçado! Fica complicado para o seu cunhado, trabalhando sozinho para sustentar as crianç
Por instantes creio que ele vira o rosto, mas não. Apenas me conserva distante, trancada em meu trágico monólogo. Reclamo.
- Eu não ia falar nada, mas você está esquisito hoje... Não foi bom o seu dia?
Por que não responde? Deve ser sério! Homem, quando tem problema, se isola. São tão diferentes de nós, que saímos logo pedindo conselho e dividindo as apreensões com o mundo. Responde, anda! Tantos anos juntos, tanta história em comum e agora ele finge que
- Está chorando? O que houve? Não, agora fala, pelo amor de Deus! O que aconteceu com você? É no trabalho? É comigo? É por causa da Laurinha? Ela vai se acertar, Roberto. Na verdade o namorado nem era tão grande coisa, mas quanto ela encontrar um amor de verdade, assim que nem o nosso, ela cresce e assenta na vida.
- O jantar tá pronto!
- Ouviu, Roberto, ela já está chamando. Pára de chorar que não fica bem um homem assim em lágrimas! O que é que a nossa filha vai pensar? Decerto vai achar que eu briguei com você. Imagine a confusão! Brigas depois de 40 anos de casamento! Que bobeira, querido, tudo tem solução nesta vida. Conte-me o que aconteceu.
- Pai...- chamou Laura da porta do quarto. Pai, de novo aí olhando o retrato da mamãe! Ela não tá aí, pai, chega, por favor, ela morreu... Não chora, pai, por favor, não chora que eu não sei o que fazer... Vem comer, vem.
Escrito por ovallejo às 14h06
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