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    Cá entre nós

    Cá entre nós

                As 23 crianças, em êxtase, tomaram a livraria como formigas curiosas atraídas pelo cheiro de doce fresco. Espalhavam-se pelos corredores largos, testando com os olhos e depois com os dedos, os livros-guloseimas que lhes foram apresentados.

     

                O primeiro a escolher o seu exemplar foi Dudu. Dudu era um garoto adorado por todos os colegas da classe. Menino amigo, dedicado, carregava a estrela que um dia imprimiria sua luz nos corações de outras gentes. Dudu colhia seu livro e dizia emocionado aos que o ouviam:

     

                - Deus escreveu tudo isso para eu poder sonhar...

     

                Logo ao lado, Cristiane, a Tininha, crescia com volumes de porte, Cecília, Machado, Eça, Pessoa. Que grande essa Tininha! Por falar em grande, Petê, o mais alto da turma, nem se esticava para alcançar as estantes mais longes do chão. Encontrou um Goethe em alemão e foi lendo, reinventando, traduzindo nele mesmo o que é talento.

     

                Nana, a moreninha de cabelos cacheados, estava quietinha, buscando nas páginas ocultas, o que havia de mais explícito. Perto dali, Julinho embarcava capitão em verso e cântico, sabendo que jamais poderia parar, porque poetizar, poetizava ele, é preciso para viver.

     

                Mais adiante, Luizinho e Nelson respiravam o cotidiano de contos e crônicas. Ali os dois se transformavam em alquimistas dos códigos sob os vocábulos. Risos vindos da seção de humor chamaram a atenção de todos. Pintava muita graça aquele trio. Patricinha (a loirinha, porque havia outra Pati, com um  sobrenome bem difícil, mas gostoso de dizer e fazer repetir, só pra ver as pessoas se engasgando), o Renatinho (que levava consigo o respeitável Aurélio e uma idéia bem brejeira) e o menino Ruy. Espalhavam tanta felicidade, que pintavam de cores vibrantes a imensa e séria casa de livros. Imensa de coração era também a Claudinha que descobria suas verdades enquanto enxergava o que cada um estaria sentido, porque ela mesma era todo sentir!

     

                Teca, a Therezinha, ia saboreando palavras, pedacinho por pedacinho, e organizando-as para sua sábia receita pessoal. Lucinha, que adorava azul-royal, avançou por sobre as letras do Sr. Rubião e cobriu-se de referências de luxo.

     

                Acreditando que a estante tinha fundo falso que levaria a um mundo paralelo, o mágico Bruninho recriava monstros, guerreiras e lordes, nas sombras de cada livro. Joãozinho, garoto exigente e crítico, parecia mesclar-se às capas e histórias e emergir delas renovando-lhes a textura.

     

                A Natinha, Renata, como a chamavam os adultos, amava os bichos e um longo tempo ficou a apreciar as coleções que falavam de gatinhos, mas foi na poesia de uma gangorra que ela se deleitou de tanto brincar. A outra Patricinha, a do engasgo no sobrenome, não desgrudou do além-mar. Das terras de Portugal trouxe para dentro de si, um senhor que era mago no próprio nome, Saramago. A Dulcinha, pisou no corredor dos contos espíritas, ou de suspense, como diriam os mais céticos, mas, no dos existencialistas, ela se esbaldou.

     

                E tinha também o Sady, cuiabaninho do direito e poético em todos os poros. A poesia o fez cativo e ele não pôde mais parar de rimar. Rimava o que dava/ o que aparentemente não/ As vogais vibravam/ afinadas em sua mão.

     

                Tavinho e Quina, esta de primeiro nome Maria, eram duas incomparáveis criaturas. Ele se encantou com os versos sem ponto e ela, que conhecia bibliotecas, tradição de família, lia, e sem precisar abrir os livros, um pouco de cada coisa que aprendeu junto ao pai. Vasto tesouro essa Quininha! E o Marcelino! Foi experimentando poemas, dizendo não saber se ia gostar, e quando deu por si, tinha mergulhada a alma na inspiração.

     

                E eu nos imaginei adultos e agradeci tanto porque pude conhecer aquela turminha. E assim, meio de longe, fiquei lá, também menina, olhando, sem nada dizer. Mas amando, em segredo, a cada um deles.

     

    Olguinha.

     



     Escrito por ovallejo às 13h50
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    Exercício de crítica solicitado pelo professor Nelson de Oliveira para a aula desta terça-feira 01/07/08

    Gosto!

    A vingança da porta

    Alberto de Oliveira

     

    Era um hábito antigo que ele tinha:
    entrar dando com a porta nos batentes
    — "Que te fez esta porta?" a mulher vinha
    e interrogava... Ele, cerrando os dentes:

    — "Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha
    calmava-se; feliz, os inocentes
    olhos revê da filha e a cabecinha
    lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

    Uma vez, ao tornar à casa, quando
    erguia a aldrava, o coração lhe fala
    — "Entra mais devagar..." Pára, hesitando...

    Nisso nos gonzos range a velha porta,
    ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
    a mulher como doida e a filha morta.

     

    Gosto do estilo narrativo do poema. Agradam-me as histórias com o velho esquema começo-meio-fim. Também me agrada o tom trágico ao final do soneto, realista, por que não? Poesia não precisa ser somente sonho. E olha que não tenho atração especial pelos parnasianos, mas tampouco os vejo “aguados” como disse Manuel Bandeira. Há tanta poesia que pouco me diz, que esta me parece dizer o suficiente sem querer ser intelectualizada (apesar da fixação parnasiana pela arte da palavra, creio que o autor foi até que bem simples- não entro no mérito métrica, rima, estrutura- falo da seleção vocabular, unicamente).

     

    Desgosto!

     

    O poema abaixo é de Oswald de Andrade

     

    Amor

    Humor

     

    Parece-me ousadia falar desta poesia como uma das que menos gosto, mas fundamentarei minha pessoalíssima opinião de forma também personalíssima. Há obras do autor que me fascinam, como Memórias Sentimentais de João Miramar, Vício na Fala, dentre outras, mas não vejo na economia de palavras de “Amor” qualquer criatividade. Foi irreverente na época em que foi criado? Bem, ainda hoje me soa a preguiça. Poupar vocábulos, poema-pílula, vá lá, mas deixar tudo ao pobre leitor? Recorda-me dos quadros contemporâneos em exposição nas mais renomadas galerias, cuja tela apresenta uma única cor e os apreciadores de arte postam-se como intelectuais privilegiados diante dela a descobrir os mistérios do verde, por exemplo, a que o autor nomeou originalissimamente de “Verde”.  Não acho que ao leitor se deva dar tudo mastigado, mas tampouco gosto do que semelha à preguiça de um consagrado artista. Já que consagrado, posso simplesmente escolher dois substantivos e deixar que os leitores façam o resto da maneira que quiserem para eu soar universal. Qualquer um lerá, entenderá e interpretará meu poema da forma que quiser? Poema-democrático? Para mim, nem poema, nem nada. Só é mencionado e reverenciado em razão do autor, ícone de um momento de revolução artística. Com o perdão pelas paródias, como assim um dia se fez poesia, então eis contribuições igualmente inúteis que concebi ou que encontrei, pela Internet, circulando como idéias:

     

    paródia nojentinha:

                                                        Poema

                                                        Enema

     

    paródia otimista:

                                                     Alegre-ria

                                                     Sorria-riso

     

    paródia medicamentosa:

                                                         Dor

                                                       Torpor

     

    paródia para quem desinspirou:

                                                       Palavra

                                                      Destrava

     

    paródia dominatrix:

                                                       Escreve

                                                       Escrava

     

    Pobres dos oswaldianos anônimos, fora de época não são invenções, são versões desgraçadas de Amor que um dia foi proclamado rei por estar em terra de cegos!

     

     

    Olga Vallejo



     Escrito por ovallejo às 14h08
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