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    Livro-me

    Livro-me

    A vida inteira fora apaixonado por livros, mas se desapontara com as letras. Certa madrugada, acordou enviesado e guardou-os em caixas, que depositou no armário poento do sótão. Prateleiras vazias, nada sobre o criado-mudo, sentia-se bem melhor. Enfim paz! Sim, porque rodeado de tantas vozes, não conseguia mais praticar a solidão necessária a um escritor. E justamente agora que estava prestes a realizar sua obra-prima! As idéias, como fervilhavam em sua cabeça!

     

    Na verdade, o problema que tentara solucionar começara há alguns meses. Voltava de uma festa e ouviu um chiado na sala. Armado com um taco de golfe e pernas bambas,  revirou a casa atrás do invasor. Nada, ninguém. Quando se convenceu de que fora a bebida que tomara no aniversário do amigo, sentou-se no sofá relaxando finalmente. Aí então é que o fenômeno se revelou, ou melhor, se configurou como fenômeno. Da enorme estante de mogno da sala de estar, um grosso exemplar de Moby Dick se dirigiu a ele. O chiado que ouvira há pouco era o da grande baleia branca. Moby, como ela se autorizou a ser chamada, comentava bobagens sobre o clima, arriscava assunto, assim como quem só quer puxar conversa. Crente de que devia ter exagerado no uísque, fechou os olhos na esperança de que a voz, ou melhor, o chiadinho terminasse. Em vez disso, outras vozes principiaram a falar, homens e mulheres, crianças, bichos, até famigerado cascudo de sotaque alemão entrou na conversa. Só depois de verificar a ausência de pessoas que estivessem com ele a brincar, é que entendeu. Os livros, e olha que tinha vários, estavam falando com ele. Eram tantos os assuntos! Uns reclamavam do lugar onde ele os pusera. Muito abafado! Aqui tem corrente de ar! Pouco iluminado! Alto demais, sofro de acrofobia! Muito baixo, fico sem destaque! Muito atrás! Perigosamente na frente! Outros queriam simplesmente contar-lhe histórias.

     

    A princípio sentiu-se privilegiado, pensava ser abençoado, o único homem sobre a Terra a manter um diálogo com os livros. Madame Bovary foi maravilhosa, E as Mulherzinhas, que doces criaturas. Teve momentos difíceis também. Werther era só tristezas , difícil consolá-lo. Drácula despertava quando o sol se punha e avançava as madrugadas papeando E ainda havia tantos, tantos outros! O pior foi quando ele começou a compor seu novo romance e os livros passaram a dar pequenas sugestões. Como não aceitar as que vinham de verdadeiros mestres! Depois, no entanto, vieram os palpites, as censuras, e até mesmo as chacotas.

     

    – Se Shakespeare tivesse registrado isso ao me conceber, eu não serviria nem para alimentar fogueira–  ria-se um Romeu e Julieta.

     

    Os outros riram também. Ele se cansou de achar graça. Depois de oito meses sem poder redigir única palavra que fosse, resolveu colocá-los no castigo. Condená-los a pior tortura imaginável: o esquecimento. Todos os livros foram levados para o sótão e lá ficariam até que aprendessem a respeitá-lo, ou que emudecessem.

     

    Nunca mais conseguiu escrever uma só linha. Cada vez que se punha à frente do papel em branco, as lembranças de vozes abafadas o faziam chorar.

     

     

    Olga Vallejo

     



     Escrito por ovallejo às 20h56
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