(Exercício sugerido pelos colegas João e Peterso na última oficina. Feito em 18/07)
Davi e Golias
- Pô,alemão, cê mijô na cerveja de novo?
A velha que tava do lado dele ficô só olhando pra ele. Acho que se arrependeu de tê vindo buscá sei lá o quê aqui no bar do alemão.
- O mano me dá u'a cerveja quente da porra, com gosto de mijo de vaca!- disse o Vadão direto pra ela.
Tadinha da velha, cara, piçava vê como espremeu o nariz co'a careta que fez. Só que o alemão ignorô o Vadão desta vez. Acho que o cara hoje num tá bom, porque o alemão adora ficá na briga com ele, mais ainda depois de umas três loirinha, quando o Vadão dá uma de macho, e o alemão faz a mó zoeira com a cara dele. Só que o otro tava a fim de confusão, e, se num tem alemão, serve a velhota baixinha que tava do lado dele.
- A senhora num acha que eu tô certo, que cerveja quente é pra cabra broxa?
A velha ia respondê, pensei, mas se encolheu e segurô a bolsinha com força. Eu ri. O Vadão me encarô e entendeu o mesmo que eu. A velha tava achano que ele era bandido!
- É...eu tô memo atrás dos troquinho que a senhora tem aí! Sô home de trabalho, num sô ladrão, não, sua desconfiada! Se minha mãe num tivesse me educado decente, eu dava uns tapa nesses ossinho que segura essas ropinha de veia aí.
Achei meio mal o Vadão falá desse jeito co’a coitada. O alemão veio pra perto e olhô feio pra ele, que resmungô umas coisa e virô pra mim.
- Aquele Robso é bem folgado, né não, ô Ulisse?
- Por quê? - eu perguntei pra dá corda pro Vadão. Ele fica todo prosa quando bebe.
- Cê viu que eu falei pra ele? Todos feriado, quando ele monta as equipe pra trabalhá nas emenda, ele dexa as panelinha dele de fora e convoca sempre o idiota aqui. O Diego, o Emérso tão sempre de folga. Eu, o Washto, o Rogério, tamo sempre na "gradinha", que nem ele chama, o bichinha. Tá pensando o quê, mano? Num sô trôxa, não, falei pra ele, ou cê faiz sorteio, ou pode tirá meu nome da “gradinha” e pô falta pra mim amanhã e depois porque num venho trabalhá mais. O Robso amarelô, cara, cê não viu? Depois ele veio com otra “gradinha”, co Diego e o Emérso nela. É, mano, num sô besta, não, porra!
Daí ele fez uma pausa, agarrô o copo de bebida e encarnô na velhinha de novo.
- É dona, a gente tem que enfrentá as pessoa nessa vida senão eles pisa na bola co'a gente e sobra só as porcaria pra nóis. Qui nem esta cerveja- ele disse pegano o copo de novo pra bebê- qui o alemão mijô, né, alemão?
A velha se virô e olhô bem pro Vadão. Ele ficô olhano pra ela tamém. Tava na cara que ia soltá outra. Até tava vendo ele xingando ela, quereno sabê si ela tava gostan'dele pra encará daquele jeito. Só que quem falô foi ela, a velha.
- O moço a quem o senhor trata por alemão não urinou em sua cerveja, como o senhor insiste tanto em repetir. Eu mesma o vi abri-la, na sua frente, aliás...
E a velha ia saíno, mas, antes dele respondê com otra bestêra, ela chegô bem pertinho do ouvido dele, como se fosse falá um segredo. O Vadão, que é alto, até abaxô pra escutá ela melhor:
- Mas eu cuspi nela quando o senhor se distraiu... Passar bem...
O Vadão nem teve reação. Nunca vi um home de tanta barba ficá tão sem graça. Até curô da bebedêra! Hoje quando passa no bar do alemão, o Vadão só pede um café pequeno e bebe tudo duma só vez. Vai que a velhota aparece de novo!
Escrito por ovallejo às 16h07
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