O Bom Amigo
O BOM AMIGO
Todos os dias os dois iam para a praça no mesmo horário, sentavam-se no banco do lado esquerdo da área de piquenique e organizavam as peças sobre o tabuleiro de xadrez. Um tinha 76 anos, o outro orgulhava-se de seus 71 bem vividos e de uma experiência que não trocaria pela de nenhum rapazola com um terço da idade dele, repetia sempre, ao que o companheiro de jogo concordava enquanto ajeitava o cavalo bem no centro de sua casa no tabuleiro. Este gostava de tudo certinho. Jamais se atrasara para nenhum dos encontros. O Antônio, entretanto, mais uma vez naquele dia...
- É o terceiro atraso este mês, só na primeira quinzena! Ele não tem consideração pelos mais velhos! Se eu combino algo com alguém, sou pontual! E pensar que o sogro da minha filha, sempre me convida para jogar bocha lá no clube esportivo, e que eu recusei educadamente todas as vezes porque o clube é chique, reservado só para sócios gente fina e um homem simples como o Antônio ia se sentir deslocado. Eu jamais abandonaria um amigo! Já ele... Dez horas? Não, não pode ser, porcaria de relógio que a minha neta me deu! A Fatinha não entende que, na idade de seu avô, números e letras grandes são pré-requisito de sobrevivência. Não é que são dez, mesmo? Que sem-vergonha!
Então refletiu que Antônio já chegara tarde outras vezes, mas nunca tanto assim! Duas horas estavam fora de cogitação até para o desleixo do amigo! Era certo que algo acontecera ao pobre homem e ele lá, ingratamente cobrando-o, até ofendendo-o, ou, queira Deus que não, insultando a memória do falecido. Sim, porque o amigo sofria de umas palpitações e os médicos tinham aconselhado moderação, mas como o Antônio sempre fora muito fiel, dissera-lhe na ocasião:
- Não vamos desistir do xadrez, Fernando! Posso até deixar de visitar meus parentes, mas nunca sacrificar o nosso joguinho!
Que pessoa especial, esse Antônio! E podia estar morto agorinha mesmo, enquanto ele matutava sem parar. Guardou as pecinhas dentro do tabuleiro dobrável e, segurando-o pela alça de couro, saiu correndo pelo parque, rumo à casa de Antônio. O porteiro, que já o conhecia, deixou-o subir. Tocou a campainha e bateu à porta insistentemente. Nada...nem um gemido abafado de socorro! Uma vizinha, ouvindo-o, saiu ao corredor e participou de sua preocupação, acrescentando que não sentia barulhos no apartamento ao lado desde o dia anterior, o que era estranho, já que o senhor do 21 costumava deixar a tevê bastante alta durante a noite. Convencido de que uma coisa horrível ocorrera com Antônio, chamou o porteiro, que não se lembrava de ter visto o morador naquela manhã. Em seguida o síndico foi recrutado e achou melhor levar o problema à polícia. Uma ambulância também foi solicitada. Choro, culpa, nervosos estalares de dedos e, finalmente, porta ao chão. Mas nada, nada de Antônio, morto ou vivo.
- Foi seqüestrado, tenho certeza!- alardeou, com histeria contagiante, o sr. Fernando.
Mais força policial foi acionada, além da família do raptado, que foi prontamente comunicada da tragédia.
A alguns quarteirões dali, no clube esportivo, Antônio se preparava para lançar a pesada bola de ferro. Que maravilha era aquilo, a bocha! Como podia ter esperado tanto tempo para descobri-la! Pena que não ia poder contar pro antigo companheiro de xadrez! É que o clube era reservado só para associados gente fina, e um homem simples como o Fernando...
Escrito por ovallejo às 20h30
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