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    Gata de Rua

    Gata de rua

    Era uma gata sem gato e gemia sob a lua, no cio leviano das fêmeas que vagam. E ao se dar, se perdia, um pouco a cada furtivo encontro, irrecuperavelmente e muito por dia.

    Não notou quando lhe faltou uma das garras. Deixara-a aos pés da lixeira onde a consumira um vira-lata sem nome. Depois, na viela, ficou sem um pedaço do rabo de que tanto se orgulhava. Porque dormia e se entregava aos cães no sereno, os cílios também se foram, junto às unhas da pata esquerda, que a chuva levara ao bueiro. E sumindo seguia, mas nem falta se fazia. Nunca tentou se reconhecer baixo os escombros da mendiga existência.

    Mas numa improdutiva madrugada, o reflexo de um pêlo sem brilho, sujo e pesado surgiu de improviso na vidraça de um bar. Riu sem um dos caninos, da improvável miragem que se oferecia, no espelho escuro, tão desavergonhada e envelhecida. Tomada de pena, desejou-lhe melhor sorte e pegou-se acompanhando a estranha num choro nu de fim de mundo. Entendia a desgraça alheia como se fosse sua, mas mal pôde acreditar, embora nem tentasse impedi-la, quando viu a outra dar-lhe as costas, subir à margem do viaduto e, chamando pela derradeira amante das coisas vivas, abraçar-se à morte.



     Escrito por ovallejo às 22h31
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    Piegas...

    (Um pouco de pieguice, se faz mal, tampouco matou ninguém... Há uma cena no filme "O Amor não Tira Férias" em que um senhor idoso dá à protagonista -Kate Winslet-uma espécie de pulseira antiga em forma de rosa, usada comumente por debutantes. Ele se desculpa pelo velho presente,  hábito piegas, e ela lhe responde: "Eu quero pieguice em minha vida")

     

     

    Sinto falta do seu rosto

    quando a noite vem.

    Talvez porque seja incerto

    o existir de um outro dia. E

    tenha medo de que você me esqueça

    quando a madrugada

    o levar distante.

    Quem sabe por que mundos

    você passeia quando dorme?

    Que desejos lhe plantam as estrelas

    para o fertilizar do sol

    em uma nova manhã?

    E se eles não lhe falarem de mim

    e você voltar do sonho ignorando

    que eu fiquei a esperar na sombra

    plácida do nosso abrigo,

    Escura, sim,

    Úmida de pranto,

    mas sua, sua até

    morrer...

    Sinto tanta falta do meu rosto

    quando a noite vem...



     Escrito por ovallejo às 22h23
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    Bobinhas e Curtinhas

    Ana Maria usava uma chaleira

    pra fazer café

    na cozinha da tia

    na casa de fazenda.

    Certa vez, Ana Maria

    Pôs água para ferver

    num dia,

    tão desperto,

    e azul e verde e lindo,

    que acabou a tia de Maria,

    ficando sem chaleira e sem café.

     ***

    "Muçarela", barbaridade que seja com cedilha,

    Porque se escrevo com dois "esses"

    "Mussarela" é a mesma maravilha!

    E "pítiça", onde já se viu aportuguesar

    Essa italiana popular! Terribile escolha

    Português! que língua difícil de ensinar!

    ***

    Tirava as roupas sérias

    e se trajava de conforto

    todos os dias

    assim que chegava em casa.

    Era sempre a mesma coisa:

    porta aberta, pé pra dentro

    blusa fora, calça idem.

    Chinelo calçava os dedos

    e in-corporava a camisola.

    Mecanicamente, certo dia-

    incerto mais acertado-

    aprumou-se num tailleur,

    colar de pérolas

    e casaco do mais caro. 

    Faltou porém um detalhe:

    o hábito que entregou o monge.

    Quem primeiro a viu foi o porteiro:

    Que excêntrica a nova moda

    da executiva de chinelas!



     Escrito por ovallejo às 22h00
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