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    (baseado em Fita Verde)

    Tosca Fita

    (Baseado em Fita Verde- de Guimarães Rosa)

     

    - Droga de fita! Tenho certeza que era verde quando pus no cabelo! Agora tá meio amarelada, nem combina mais com a roupa! Só falta o Lobão não gostar de mim assim e não me passar os bons esta noite. Sim, porque aos sábados é que vêm os mais cheios da grana e a gente consegue fazer uns dois ou três passeios pela "selva", na boca dos carniceiros... Ah... se eu tivesse ouvido a mãe ou até o pai, que apesar de lenhar numa época de ecologia e tal, era um homem bom,.. Mas, não né, ô Tosca, tinha que vir pra cidade, desviar da vida e cair no conto da Vó Lupita, que depois morreu e deixou a gente nas mãos desse grosso do Lobão Gigolô. Pelo menos acho que ele me curte, sou a única que passa algumas noites com ele. Por isso ele me dá os clientes com mais dinheiro! As outras meninas se mordem de inveja e nem desconfiam que o Lobão só faz-de-conta dentro do quarto. E daí? Todo mundo precisa manter as aparências!

    - Tá pronta, Tosca? A casa tá cheia!

    - Escuta ele atrás da porta como ladra em público.... e esta fita, gente, que não tem cor! É, Tosca, agora vê se deixa esse laço descorado quieto, senão desmancha o penteado e não dá tempo pra arrumar. Vai assim mesmo que... Droga! logo agora? Alô?... Oi, mãe... tudo... não, ó mãe, não dá pra falar, é que vou entrar numa aula agora mesmo, é de... você não vai saber do que é, mãe...É... de História! É, é coisa chique! Estudo direitinho, sim, mãe... pra senhora também, tchau, mãezinha.

    - Que merda é essa, Tosca, por que demorô tanto? Tá chorando? Enxuga essas lágrima que não quero tristeza hoje no salão! Tá cheio de crassudo por aqui e a gente vai faturá legal. Anda... é a tua vez! E vê se rebola esse seu doce em cauda que os caçador tá doido pra te prová e eu já falei pras otra que você escolhe primeiro! Agora dá uma risadinha e diz: quem é que te ama? Hem? Quem é que te ama? Hem? Hem?

    - É você, Lobão!

    - Isso, assim. Agora vaza, que era uma vez! Linda,...linda de frente, gostosa de costa e... mas que porra de fita preta é essa no cabelo dela?



     Escrito por ovallejo às 14h59
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    * aceito doações de titulos para este texto...

    ex-História sem Título*

    Gorjeio de amor (romântico título, gentilmente sugerido pela colega Laura Fuentes!)

    Linda noite, limpa. O garoto fitou a Lua imensa. Do alto ela veria tudo, deduziu. Juntou as mãos na frente do rosto, respirou fundo olhando para ela e rezou "Lua, se vir por aí Canarinho que me fugiu, peça que venha se despedir. Não fez bem voar deixando a gaiola vazia, comida posta e água fresquinha. Mamãe disse que é assim também com os filhos, que um dia sairão de casa sem dizer para onde, os ingratos. Mas não eu ! respondi inconformado. Não entendo , Lua do Céu, se a gente brincava e ele cantava, por que é que um dia ele achou de ir embora? Peça que volte meu pássaro cantor... sou tão infeliz sem ele".

    Tomada de pena, a Lua, que conhecia aquele mesmo pesar- parira estrelas, meninas inconstantes- buscou entre florestas, campos e estradas, sussurrou ao Vento,que invocou a Luz para ajudar. Mas nada, nada de Canarinho aparecer. Então o Solo, porque ouvira falar da busca, chamou por uma Semente crescida para que contasse ao Lago, que por sua vez avisou as Nuvens, que esperaram para dizer à Noite que o canário não fugira. Repousava em segredo nas entranhas da terra, já sem cantar. Não fora ingratidão, não fora tristeza que o fizeram partir. Deixara o menino porque sua vida chegara ao fim.

    A pálida Lua não pôde contar essa história ao pequeno que já muito sofria. Então, quando em outra noite ele apareceu à janela , a Lua inventou:

    "Menino, carinho meu, descobri do canário e das paragens por onde descansa. Pediu-lhe desculpas por não ter dito que num sonho se vai longe. É que sem perceber, dormindo, afastou-se deste lar, mas vive em outro feliz e até fez família por lá. Se quiser muito, ele volta. Deixa filhotes e ninho e por amar tanto este menino, não se importaria de voltar."

    E o menino sorriu pensando em seu amigo, que vivera aprisionado e agora era contente.

    "Não, senhora Lua, diga-lhe que fique, não há o que perdoar. Senti saudades, mas agora entendo; senti raiva, e me envergonho. Esse pássaro não me pertencia. Era do mundo e eu não sabia. Tinha sua própria história a viver. Mande-lhe apenas mais um recado, sem querer abusar. Que seja feliz, como eu fui quando me ensinou a cantar."

    Dizem que a Lua ainda estremece ao recordar, porque naquele instante, de dentro da terra dormente, ergueu-se um trinado de dor. Não era a morte, era a vida, que respondia ao menino, no seu gorjeio de amor.

     

    (*Aceito sugestões. Na verdade, preciso delas, porque o que me saiu, "O Menino a Lua e o Canarinho",  pareceu-me assustadoramente pobre; pobre de marré, marré, marré...)



     Escrito por ovallejo às 13h03
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