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    Acordeão em Vermelho

    Este texto está disponível em meu novo Blog do Curso de Formação de Escritores: abcdletras.blogspot.com

    Este blog "superfluoportuno" continuará existindo, para outras postagens!



     Escrito por ovallejo às 17h44
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    Vídeo Aerolineas Argentinas (Shadow)

    Ontem assisti a este comercial da companhia Aerolineas Argentinas (Shadow), não pela empresa e não com olhos comerciais, mas com olhos de criança. Achei-o lindo e o deixo aqui para que outros "sonhantes" possam desfrutar dele.

     



     Escrito por ovallejo às 14h00
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    (baseado em Fita Verde)

    Tosca Fita

    (Baseado em Fita Verde- de Guimarães Rosa)

     

    - Droga de fita! Tenho certeza que era verde quando pus no cabelo! Agora tá meio amarelada, nem combina mais com a roupa! Só falta o Lobão não gostar de mim assim e não me passar os bons esta noite. Sim, porque aos sábados é que vêm os mais cheios da grana e a gente consegue fazer uns dois ou três passeios pela "selva", na boca dos carniceiros... Ah... se eu tivesse ouvido a mãe ou até o pai, que apesar de lenhar numa época de ecologia e tal, era um homem bom,.. Mas, não né, ô Tosca, tinha que vir pra cidade, desviar da vida e cair no conto da Vó Lupita, que depois morreu e deixou a gente nas mãos desse grosso do Lobão Gigolô. Pelo menos acho que ele me curte, sou a única que passa algumas noites com ele. Por isso ele me dá os clientes com mais dinheiro! As outras meninas se mordem de inveja e nem desconfiam que o Lobão só faz-de-conta dentro do quarto. E daí? Todo mundo precisa manter as aparências!

    - Tá pronta, Tosca? A casa tá cheia!

    - Escuta ele atrás da porta como ladra em público.... e esta fita, gente, que não tem cor! É, Tosca, agora vê se deixa esse laço descorado quieto, senão desmancha o penteado e não dá tempo pra arrumar. Vai assim mesmo que... Droga! logo agora? Alô?... Oi, mãe... tudo... não, ó mãe, não dá pra falar, é que vou entrar numa aula agora mesmo, é de... você não vai saber do que é, mãe...É... de História! É, é coisa chique! Estudo direitinho, sim, mãe... pra senhora também, tchau, mãezinha.

    - Que merda é essa, Tosca, por que demorô tanto? Tá chorando? Enxuga essas lágrima que não quero tristeza hoje no salão! Tá cheio de crassudo por aqui e a gente vai faturá legal. Anda... é a tua vez! E vê se rebola esse seu doce em cauda que os caçador tá doido pra te prová e eu já falei pras otra que você escolhe primeiro! Agora dá uma risadinha e diz: quem é que te ama? Hem? Quem é que te ama? Hem? Hem?

    - É você, Lobão!

    - Isso, assim. Agora vaza, que era uma vez! Linda,...linda de frente, gostosa de costa e... mas que porra de fita preta é essa no cabelo dela?



     Escrito por ovallejo às 14h59
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    * aceito doações de titulos para este texto...

    ex-História sem Título*

    Gorjeio de amor (romântico título, gentilmente sugerido pela colega Laura Fuentes!)

    Linda noite, limpa. O garoto fitou a Lua imensa. Do alto ela veria tudo, deduziu. Juntou as mãos na frente do rosto, respirou fundo olhando para ela e rezou "Lua, se vir por aí Canarinho que me fugiu, peça que venha se despedir. Não fez bem voar deixando a gaiola vazia, comida posta e água fresquinha. Mamãe disse que é assim também com os filhos, que um dia sairão de casa sem dizer para onde, os ingratos. Mas não eu ! respondi inconformado. Não entendo , Lua do Céu, se a gente brincava e ele cantava, por que é que um dia ele achou de ir embora? Peça que volte meu pássaro cantor... sou tão infeliz sem ele".

    Tomada de pena, a Lua, que conhecia aquele mesmo pesar- parira estrelas, meninas inconstantes- buscou entre florestas, campos e estradas, sussurrou ao Vento,que invocou a Luz para ajudar. Mas nada, nada de Canarinho aparecer. Então o Solo, porque ouvira falar da busca, chamou por uma Semente crescida para que contasse ao Lago, que por sua vez avisou as Nuvens, que esperaram para dizer à Noite que o canário não fugira. Repousava em segredo nas entranhas da terra, já sem cantar. Não fora ingratidão, não fora tristeza que o fizeram partir. Deixara o menino porque sua vida chegara ao fim.

    A pálida Lua não pôde contar essa história ao pequeno que já muito sofria. Então, quando em outra noite ele apareceu à janela , a Lua inventou:

    "Menino, carinho meu, descobri do canário e das paragens por onde descansa. Pediu-lhe desculpas por não ter dito que num sonho se vai longe. É que sem perceber, dormindo, afastou-se deste lar, mas vive em outro feliz e até fez família por lá. Se quiser muito, ele volta. Deixa filhotes e ninho e por amar tanto este menino, não se importaria de voltar."

    E o menino sorriu pensando em seu amigo, que vivera aprisionado e agora era contente.

    "Não, senhora Lua, diga-lhe que fique, não há o que perdoar. Senti saudades, mas agora entendo; senti raiva, e me envergonho. Esse pássaro não me pertencia. Era do mundo e eu não sabia. Tinha sua própria história a viver. Mande-lhe apenas mais um recado, sem querer abusar. Que seja feliz, como eu fui quando me ensinou a cantar."

    Dizem que a Lua ainda estremece ao recordar, porque naquele instante, de dentro da terra dormente, ergueu-se um trinado de dor. Não era a morte, era a vida, que respondia ao menino, no seu gorjeio de amor.

     

    (*Aceito sugestões. Na verdade, preciso delas, porque o que me saiu, "O Menino a Lua e o Canarinho",  pareceu-me assustadoramente pobre; pobre de marré, marré, marré...)



     Escrito por ovallejo às 13h03
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    Gata de Rua

    Gata de rua

    Era uma gata sem gato e gemia sob a lua, no cio leviano das fêmeas que vagam. E ao se dar, se perdia, um pouco a cada furtivo encontro, irrecuperavelmente e muito por dia.

    Não notou quando lhe faltou uma das garras. Deixara-a aos pés da lixeira onde a consumira um vira-lata sem nome. Depois, na viela, ficou sem um pedaço do rabo de que tanto se orgulhava. Porque dormia e se entregava aos cães no sereno, os cílios também se foram, junto às unhas da pata esquerda, que a chuva levara ao bueiro. E sumindo seguia, mas nem falta se fazia. Nunca tentou se reconhecer baixo os escombros da mendiga existência.

    Mas numa improdutiva madrugada, o reflexo de um pêlo sem brilho, sujo e pesado surgiu de improviso na vidraça de um bar. Riu sem um dos caninos, da improvável miragem que se oferecia, no espelho escuro, tão desavergonhada e envelhecida. Tomada de pena, desejou-lhe melhor sorte e pegou-se acompanhando a estranha num choro nu de fim de mundo. Entendia a desgraça alheia como se fosse sua, mas mal pôde acreditar, embora nem tentasse impedi-la, quando viu a outra dar-lhe as costas, subir à margem do viaduto e, chamando pela derradeira amante das coisas vivas, abraçar-se à morte.



     Escrito por ovallejo às 22h31
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    Piegas...

    (Um pouco de pieguice, se faz mal, tampouco matou ninguém... Há uma cena no filme "O Amor não Tira Férias" em que um senhor idoso dá à protagonista -Kate Winslet-uma espécie de pulseira antiga em forma de rosa, usada comumente por debutantes. Ele se desculpa pelo velho presente,  hábito piegas, e ela lhe responde: "Eu quero pieguice em minha vida")

     

     

    Sinto falta do seu rosto

    quando a noite vem.

    Talvez porque seja incerto

    o existir de um outro dia. E

    tenha medo de que você me esqueça

    quando a madrugada

    o levar distante.

    Quem sabe por que mundos

    você passeia quando dorme?

    Que desejos lhe plantam as estrelas

    para o fertilizar do sol

    em uma nova manhã?

    E se eles não lhe falarem de mim

    e você voltar do sonho ignorando

    que eu fiquei a esperar na sombra

    plácida do nosso abrigo,

    Escura, sim,

    Úmida de pranto,

    mas sua, sua até

    morrer...

    Sinto tanta falta do meu rosto

    quando a noite vem...



     Escrito por ovallejo às 22h23
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    Bobinhas e Curtinhas

    Ana Maria usava uma chaleira

    pra fazer café

    na cozinha da tia

    na casa de fazenda.

    Certa vez, Ana Maria

    Pôs água para ferver

    num dia,

    tão desperto,

    e azul e verde e lindo,

    que acabou a tia de Maria,

    ficando sem chaleira e sem café.

     ***

    "Muçarela", barbaridade que seja com cedilha,

    Porque se escrevo com dois "esses"

    "Mussarela" é a mesma maravilha!

    E "pítiça", onde já se viu aportuguesar

    Essa italiana popular! Terribile escolha

    Português! que língua difícil de ensinar!

    ***

    Tirava as roupas sérias

    e se trajava de conforto

    todos os dias

    assim que chegava em casa.

    Era sempre a mesma coisa:

    porta aberta, pé pra dentro

    blusa fora, calça idem.

    Chinelo calçava os dedos

    e in-corporava a camisola.

    Mecanicamente, certo dia-

    incerto mais acertado-

    aprumou-se num tailleur,

    colar de pérolas

    e casaco do mais caro. 

    Faltou porém um detalhe:

    o hábito que entregou o monge.

    Quem primeiro a viu foi o porteiro:

    Que excêntrica a nova moda

    da executiva de chinelas!



     Escrito por ovallejo às 22h00
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    O Bom Amigo

    O BOM AMIGO

    Todos os dias os dois iam para a praça no mesmo horário, sentavam-se no banco do lado esquerdo da área de piquenique e organizavam as peças sobre o tabuleiro de xadrez. Um tinha 76 anos, o outro orgulhava-se de seus 71 bem vividos e de uma experiência que não trocaria pela de nenhum rapazola com um terço da idade dele, repetia sempre, ao que o companheiro de jogo concordava enquanto ajeitava o cavalo bem no centro de sua casa no tabuleiro. Este gostava de tudo certinho. Jamais se atrasara para nenhum dos encontros. O Antônio, entretanto, mais uma vez naquele dia...

     

    - É o terceiro atraso este mês, só na primeira quinzena!  Ele não tem consideração pelos mais velhos! Se eu combino algo com alguém, sou pontual! E pensar que o sogro da minha filha, sempre me convida para jogar bocha lá no clube esportivo, e que eu recusei educadamente todas as vezes porque o clube é chique, reservado só para sócios gente fina e um homem simples como o Antônio ia se sentir deslocado. Eu jamais abandonaria um amigo! Já ele... Dez horas? Não, não pode ser, porcaria de relógio que a minha neta me deu! A Fatinha não entende que, na idade de seu avô, números e letras grandes são pré-requisito de sobrevivência. Não é que são dez, mesmo? Que sem-vergonha!

     

    Então refletiu que Antônio já chegara tarde outras vezes, mas nunca tanto assim! Duas horas estavam fora de cogitação até para o desleixo do amigo! Era certo que algo acontecera ao pobre homem e ele lá, ingratamente cobrando-o, até ofendendo-o, ou, queira Deus que não, insultando a memória do falecido. Sim, porque o amigo sofria de umas palpitações e os médicos tinham aconselhado moderação, mas como o Antônio sempre fora muito fiel, dissera-lhe na ocasião:

     

    - Não vamos desistir do xadrez, Fernando! Posso até deixar de visitar meus parentes, mas nunca sacrificar o nosso joguinho!

     

    Que pessoa especial, esse Antônio! E podia estar morto agorinha mesmo, enquanto ele matutava sem parar. Guardou  as pecinhas dentro do tabuleiro dobrável e, segurando-o pela alça de couro, saiu correndo pelo parque, rumo à casa de Antônio. O porteiro, que já o conhecia, deixou-o subir. Tocou a campainha e bateu à porta insistentemente. Nada...nem um gemido abafado de socorro! Uma vizinha, ouvindo-o, saiu ao corredor e participou de sua preocupação, acrescentando que não sentia barulhos no apartamento ao lado desde o dia anterior, o que era estranho, já que o senhor do 21 costumava deixar a tevê bastante alta durante a noite. Convencido de que uma coisa horrível ocorrera com Antônio, chamou o porteiro, que não se lembrava de ter visto o morador  naquela manhã. Em seguida o síndico foi  recrutado e achou melhor levar o problema à polícia. Uma ambulância também foi solicitada. Choro, culpa, nervosos estalares de dedos e, finalmente, porta ao chão. Mas nada, nada de Antônio, morto ou vivo.

     

    - Foi seqüestrado, tenho certeza!- alardeou, com histeria contagiante, o sr. Fernando.

    Mais força policial foi acionada, além da família do raptado, que foi prontamente comunicada da tragédia.

     

    A alguns quarteirões dali, no clube esportivo, Antônio se preparava para lançar a pesada bola de ferro. Que maravilha era aquilo, a bocha! Como podia ter esperado tanto tempo para descobri-la! Pena que não ia poder contar pro antigo companheiro de xadrez! É que o clube era reservado só para associados gente fina,  e um homem simples como o Fernando...

     



     Escrito por ovallejo às 20h30
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    (Exercício sugerido pelos colegas João e Peterso na última oficina. Feito em 18/07)

    Davi e Golias

    - Pô,alemão, cê mijô na cerveja de novo?

    A velha que tava do lado dele ficô só olhando pra ele. Acho que se arrependeu de tê vindo buscá sei lá o quê aqui no bar do alemão.

    - O mano me dá u'a cerveja quente da porra, com gosto de mijo de vaca!- disse o Vadão direto pra ela.

    Tadinha da velha, cara, piçava vê como espremeu o nariz co'a careta que fez. Só que o alemão ignorô o Vadão desta vez. Acho que o cara hoje num tá bom, porque o alemão adora ficá na briga com ele, mais ainda depois de umas três loirinha, quando o Vadão dá uma de macho, e o alemão faz a mó zoeira com a cara dele. Só que o otro tava a fim de confusão, e, se num tem alemão, serve a velhota baixinha que tava do lado dele.

    - A senhora num acha que eu tô certo, que cerveja quente é pra cabra broxa?

    A velha ia respondê, pensei, mas se encolheu e segurô a bolsinha com força. Eu ri. O Vadão me encarô e entendeu o mesmo que eu. A velha tava achano que ele era bandido!

    - É...eu tô memo atrás dos troquinho que a senhora tem aí! Sô home de trabalho, num sô ladrão, não, sua desconfiada! Se minha mãe num tivesse me educado decente, eu dava uns tapa nesses ossinho que segura essas ropinha de veia aí.

    Achei meio mal o Vadão falá desse jeito co’a coitada. O alemão veio pra perto e olhô feio pra ele, que resmungô umas coisa e virô pra mim.

    - Aquele Robso é bem folgado, né não, ô Ulisse?

    - Por quê? - eu perguntei pra dá corda pro Vadão. Ele fica todo prosa quando bebe.

    - Cê viu que eu falei pra ele? Todos feriado, quando ele monta as equipe pra trabalhá nas emenda, ele dexa as panelinha dele de fora e convoca sempre o idiota aqui. O Diego, o Emérso tão sempre de folga. Eu, o Washto, o Rogério, tamo sempre na "gradinha", que nem ele chama, o bichinha. Tá pensando o quê, mano? Num sô trôxa, não, falei pra ele, ou cê faiz sorteio, ou pode tirá meu nome da “gradinha” e pô falta pra mim amanhã e depois porque num venho trabalhá mais. O Robso amarelô, cara, cê não viu? Depois ele veio com otra “gradinha”, co Diego e o Emérso nela. É, mano, num sô besta, não, porra!

    Daí ele fez uma pausa, agarrô o copo de bebida e encarnô na velhinha de novo.

    - É dona, a gente tem que enfrentá as pessoa nessa vida senão eles pisa na bola co'a gente e sobra só as porcaria pra nóis. Qui nem esta cerveja- ele disse pegano o copo de novo pra bebê- qui o alemão mijô, né, alemão?

    A velha se virô e olhô bem pro Vadão. Ele ficô olhano pra ela tamém. Tava na cara que ia soltá outra. Até tava vendo ele xingando ela, quereno sabê si ela tava gostan'dele pra encará daquele jeito. Só que quem falô foi ela, a velha.

    - O moço a quem o senhor trata por alemão não urinou em sua cerveja, como o senhor insiste tanto em repetir. Eu mesma o vi abri-la, na sua frente, aliás...

    E a velha ia saíno, mas, antes dele respondê com otra bestêra, ela chegô bem pertinho do ouvido dele, como se fosse falá um segredo. O Vadão, que é alto, até abaxô pra escutá ela melhor:

    - Mas eu cuspi nela quando o senhor se distraiu... Passar bem...

    O Vadão nem teve reação. Nunca vi um home de tanta barba ficá tão sem graça. Até curô da bebedêra! Hoje quando passa no bar do alemão, o Vadão só pede um café pequeno e bebe tudo duma só vez. Vai que a velhota aparece de novo!



     Escrito por ovallejo às 16h07
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    Livro-me

    Livro-me

    A vida inteira fora apaixonado por livros, mas se desapontara com as letras. Certa madrugada, acordou enviesado e guardou-os em caixas, que depositou no armário poento do sótão. Prateleiras vazias, nada sobre o criado-mudo, sentia-se bem melhor. Enfim paz! Sim, porque rodeado de tantas vozes, não conseguia mais praticar a solidão necessária a um escritor. E justamente agora que estava prestes a realizar sua obra-prima! As idéias, como fervilhavam em sua cabeça!

     

    Na verdade, o problema que tentara solucionar começara há alguns meses. Voltava de uma festa e ouviu um chiado na sala. Armado com um taco de golfe e pernas bambas,  revirou a casa atrás do invasor. Nada, ninguém. Quando se convenceu de que fora a bebida que tomara no aniversário do amigo, sentou-se no sofá relaxando finalmente. Aí então é que o fenômeno se revelou, ou melhor, se configurou como fenômeno. Da enorme estante de mogno da sala de estar, um grosso exemplar de Moby Dick se dirigiu a ele. O chiado que ouvira há pouco era o da grande baleia branca. Moby, como ela se autorizou a ser chamada, comentava bobagens sobre o clima, arriscava assunto, assim como quem só quer puxar conversa. Crente de que devia ter exagerado no uísque, fechou os olhos na esperança de que a voz, ou melhor, o chiadinho terminasse. Em vez disso, outras vozes principiaram a falar, homens e mulheres, crianças, bichos, até famigerado cascudo de sotaque alemão entrou na conversa. Só depois de verificar a ausência de pessoas que estivessem com ele a brincar, é que entendeu. Os livros, e olha que tinha vários, estavam falando com ele. Eram tantos os assuntos! Uns reclamavam do lugar onde ele os pusera. Muito abafado! Aqui tem corrente de ar! Pouco iluminado! Alto demais, sofro de acrofobia! Muito baixo, fico sem destaque! Muito atrás! Perigosamente na frente! Outros queriam simplesmente contar-lhe histórias.

     

    A princípio sentiu-se privilegiado, pensava ser abençoado, o único homem sobre a Terra a manter um diálogo com os livros. Madame Bovary foi maravilhosa, E as Mulherzinhas, que doces criaturas. Teve momentos difíceis também. Werther era só tristezas , difícil consolá-lo. Drácula despertava quando o sol se punha e avançava as madrugadas papeando E ainda havia tantos, tantos outros! O pior foi quando ele começou a compor seu novo romance e os livros passaram a dar pequenas sugestões. Como não aceitar as que vinham de verdadeiros mestres! Depois, no entanto, vieram os palpites, as censuras, e até mesmo as chacotas.

     

    – Se Shakespeare tivesse registrado isso ao me conceber, eu não serviria nem para alimentar fogueira–  ria-se um Romeu e Julieta.

     

    Os outros riram também. Ele se cansou de achar graça. Depois de oito meses sem poder redigir única palavra que fosse, resolveu colocá-los no castigo. Condená-los a pior tortura imaginável: o esquecimento. Todos os livros foram levados para o sótão e lá ficariam até que aprendessem a respeitá-lo, ou que emudecessem.

     

    Nunca mais conseguiu escrever uma só linha. Cada vez que se punha à frente do papel em branco, as lembranças de vozes abafadas o faziam chorar.

     

     

    Olga Vallejo

     



     Escrito por ovallejo às 20h56
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    Cá entre nós

    Cá entre nós

                As 23 crianças, em êxtase, tomaram a livraria como formigas curiosas atraídas pelo cheiro de doce fresco. Espalhavam-se pelos corredores largos, testando com os olhos e depois com os dedos, os livros-guloseimas que lhes foram apresentados.

     

                O primeiro a escolher o seu exemplar foi Dudu. Dudu era um garoto adorado por todos os colegas da classe. Menino amigo, dedicado, carregava a estrela que um dia imprimiria sua luz nos corações de outras gentes. Dudu colhia seu livro e dizia emocionado aos que o ouviam:

     

                - Deus escreveu tudo isso para eu poder sonhar...

     

                Logo ao lado, Cristiane, a Tininha, crescia com volumes de porte, Cecília, Machado, Eça, Pessoa. Que grande essa Tininha! Por falar em grande, Petê, o mais alto da turma, nem se esticava para alcançar as estantes mais longes do chão. Encontrou um Goethe em alemão e foi lendo, reinventando, traduzindo nele mesmo o que é talento.

     

                Nana, a moreninha de cabelos cacheados, estava quietinha, buscando nas páginas ocultas, o que havia de mais explícito. Perto dali, Julinho embarcava capitão em verso e cântico, sabendo que jamais poderia parar, porque poetizar, poetizava ele, é preciso para viver.

     

                Mais adiante, Luizinho e Nelson respiravam o cotidiano de contos e crônicas. Ali os dois se transformavam em alquimistas dos códigos sob os vocábulos. Risos vindos da seção de humor chamaram a atenção de todos. Pintava muita graça aquele trio. Patricinha (a loirinha, porque havia outra Pati, com um  sobrenome bem difícil, mas gostoso de dizer e fazer repetir, só pra ver as pessoas se engasgando), o Renatinho (que levava consigo o respeitável Aurélio e uma idéia bem brejeira) e o menino Ruy. Espalhavam tanta felicidade, que pintavam de cores vibrantes a imensa e séria casa de livros. Imensa de coração era também a Claudinha que descobria suas verdades enquanto enxergava o que cada um estaria sentido, porque ela mesma era todo sentir!

     

                Teca, a Therezinha, ia saboreando palavras, pedacinho por pedacinho, e organizando-as para sua sábia receita pessoal. Lucinha, que adorava azul-royal, avançou por sobre as letras do Sr. Rubião e cobriu-se de referências de luxo.

     

                Acreditando que a estante tinha fundo falso que levaria a um mundo paralelo, o mágico Bruninho recriava monstros, guerreiras e lordes, nas sombras de cada livro. Joãozinho, garoto exigente e crítico, parecia mesclar-se às capas e histórias e emergir delas renovando-lhes a textura.

     

                A Natinha, Renata, como a chamavam os adultos, amava os bichos e um longo tempo ficou a apreciar as coleções que falavam de gatinhos, mas foi na poesia de uma gangorra que ela se deleitou de tanto brincar. A outra Patricinha, a do engasgo no sobrenome, não desgrudou do além-mar. Das terras de Portugal trouxe para dentro de si, um senhor que era mago no próprio nome, Saramago. A Dulcinha, pisou no corredor dos contos espíritas, ou de suspense, como diriam os mais céticos, mas, no dos existencialistas, ela se esbaldou.

     

                E tinha também o Sady, cuiabaninho do direito e poético em todos os poros. A poesia o fez cativo e ele não pôde mais parar de rimar. Rimava o que dava/ o que aparentemente não/ As vogais vibravam/ afinadas em sua mão.

     

                Tavinho e Quina, esta de primeiro nome Maria, eram duas incomparáveis criaturas. Ele se encantou com os versos sem ponto e ela, que conhecia bibliotecas, tradição de família, lia, e sem precisar abrir os livros, um pouco de cada coisa que aprendeu junto ao pai. Vasto tesouro essa Quininha! E o Marcelino! Foi experimentando poemas, dizendo não saber se ia gostar, e quando deu por si, tinha mergulhada a alma na inspiração.

     

                E eu nos imaginei adultos e agradeci tanto porque pude conhecer aquela turminha. E assim, meio de longe, fiquei lá, também menina, olhando, sem nada dizer. Mas amando, em segredo, a cada um deles.

     

    Olguinha.

     



     Escrito por ovallejo às 13h50
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    Exercício de crítica solicitado pelo professor Nelson de Oliveira para a aula desta terça-feira 01/07/08

    Gosto!

    A vingança da porta

    Alberto de Oliveira

     

    Era um hábito antigo que ele tinha:
    entrar dando com a porta nos batentes
    — "Que te fez esta porta?" a mulher vinha
    e interrogava... Ele, cerrando os dentes:

    — "Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha
    calmava-se; feliz, os inocentes
    olhos revê da filha e a cabecinha
    lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

    Uma vez, ao tornar à casa, quando
    erguia a aldrava, o coração lhe fala
    — "Entra mais devagar..." Pára, hesitando...

    Nisso nos gonzos range a velha porta,
    ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
    a mulher como doida e a filha morta.

     

    Gosto do estilo narrativo do poema. Agradam-me as histórias com o velho esquema começo-meio-fim. Também me agrada o tom trágico ao final do soneto, realista, por que não? Poesia não precisa ser somente sonho. E olha que não tenho atração especial pelos parnasianos, mas tampouco os vejo “aguados” como disse Manuel Bandeira. Há tanta poesia que pouco me diz, que esta me parece dizer o suficiente sem querer ser intelectualizada (apesar da fixação parnasiana pela arte da palavra, creio que o autor foi até que bem simples- não entro no mérito métrica, rima, estrutura- falo da seleção vocabular, unicamente).

     

    Desgosto!

     

    O poema abaixo é de Oswald de Andrade

     

    Amor

    Humor

     

    Parece-me ousadia falar desta poesia como uma das que menos gosto, mas fundamentarei minha pessoalíssima opinião de forma também personalíssima. Há obras do autor que me fascinam, como Memórias Sentimentais de João Miramar, Vício na Fala, dentre outras, mas não vejo na economia de palavras de “Amor” qualquer criatividade. Foi irreverente na época em que foi criado? Bem, ainda hoje me soa a preguiça. Poupar vocábulos, poema-pílula, vá lá, mas deixar tudo ao pobre leitor? Recorda-me dos quadros contemporâneos em exposição nas mais renomadas galerias, cuja tela apresenta uma única cor e os apreciadores de arte postam-se como intelectuais privilegiados diante dela a descobrir os mistérios do verde, por exemplo, a que o autor nomeou originalissimamente de “Verde”.  Não acho que ao leitor se deva dar tudo mastigado, mas tampouco gosto do que semelha à preguiça de um consagrado artista. Já que consagrado, posso simplesmente escolher dois substantivos e deixar que os leitores façam o resto da maneira que quiserem para eu soar universal. Qualquer um lerá, entenderá e interpretará meu poema da forma que quiser? Poema-democrático? Para mim, nem poema, nem nada. Só é mencionado e reverenciado em razão do autor, ícone de um momento de revolução artística. Com o perdão pelas paródias, como assim um dia se fez poesia, então eis contribuições igualmente inúteis que concebi ou que encontrei, pela Internet, circulando como idéias:

     

    paródia nojentinha:

                                                        Poema

                                                        Enema

     

    paródia otimista:

                                                     Alegre-ria

                                                     Sorria-riso

     

    paródia medicamentosa:

                                                         Dor

                                                       Torpor

     

    paródia para quem desinspirou:

                                                       Palavra

                                                      Destrava

     

    paródia dominatrix:

                                                       Escreve

                                                       Escrava

     

    Pobres dos oswaldianos anônimos, fora de época não são invenções, são versões desgraçadas de Amor que um dia foi proclamado rei por estar em terra de cegos!

     

     

    Olga Vallejo



     Escrito por ovallejo às 14h08
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    Plágio, com licença e desculpa de exercício para a aula final do professor Gabriel Perissé, do Curso de Formação de Escritores.

    (Peço, antes de mais nada, desculpas aos autores que plagiei tão desavergonhadamente, que denegri, revirei e ultrajei com esta versão pouco original e muito copiativa de suas memoráveis obras. Se me ouvirem do mundo onde estiverem, tomem este exercício como uma homenagem com boas e puras inteções, mas de caráter duvidável e talento criativo bastante discutível... Divertidíssimo no entando, ao menos para esta que vos escreve!)

     

    Estácio

     

    Foi no Pari, ao anoitecer, durante um jogo de sinuca. Disputava eu a final com um moço loiro que acabara de conhecer. Meu oponente gozava de grande vantagem. Aquela seria a última chance de resgatar o pouco nome que me restava. Mirei a esfera branca e, ao realizar a tacada, senti que a mesa estremecia. O rapaz a arrastara, sem dúvida! Fui ter com ele. Educadamente, o jovem de aparência refinada negou a acusação, o que me enfureceu a ponto de fazer o que ordena o impulso ao mau perdedor.

    –Seu covarde, ladrão!!!

    O rosto do moço transfigurou-se. Meu impropério causara reação ainda mais violenta no inimigo.

    –Você e eu!- disse ele despindo-se da luva de couro e apontando-me o dedo alvo como quem empunha uma espada-  Uma arma para cada um, na Viela da Desova!

    Diante da menção do local, eu não podia mais recuar. A famigerada viela era lugar afastado, morada de filhos inominados, escuro e propício para os duelos. Tratava-se agora de uma pendência de honra, que só se resolveria com sangue. Dele ou meu. Alguns dos outros freqüentadores tentaram intervir, mas éramos dois decididos por um final trágico para esta história.

    Antes do confronto derradeiro, passamos pela casa de meu desafiante. As pistolas que usaríamos seriam as dele. Ofereceu-me duas automáticas alemãs idênticas. Conforme me explicou, uma estava carregada, a outra não. Eu escolhi primeiro. Arrepiei-me ao sopesar a máuser. Leve demais, certamente descarregada, concluí. Ao mesmo tempo, aquilo me consolou. Estava pronto para me despedir da vida. Pronto como o caminhante poento que espera para deixar o tédio do deserto. Eu não tinha herdeiros. A ninguém sobraria o legado de minha miséria.

    - Caso algo me aconteça, pediu ele mostrando-me um anel, o senhor promete entregar esta jóia à minha mãe?

    Assenti diligentemente e ele o guardou consigo no bolso do casaco. Serviu-nos um conhaque. O último para um de nós. Bebemos.

    - Vamos?-perguntei ansioso.

    - Vamos.- respondeu-me com o belo rosto cheio de amargura.

    Flagrei-me exageradamente comovido com a figura do oponente. Que diabos aquilo? Eu, um possível assassino, apaixonando-me por outro homem? Aliás, Diadorim, chamava-se Diadorim, dissera-me ele ainda no bilhar.

    Partimos.

    Seguimos os três rumo à Desova. Não lhes disse, caros leitores, mas se juntara a nós outro homem. Virgílio seria nossa testemunha. Assim se fazem os enfrentamentos entre cavalheiros, com acompanhantes legais para a barbárie civilizada.

    - Abandonem as esperanças, perdidas gentes!- gritou-nos um bêbado maltrapilho na entrada da viela infernal.

    Caminhamos um pouco mais e paramos. Posicionamo-nos frente a frente. As pistolas encostadas nos peitos. Apertamos os gatilhos. Um único estampido ressoou e o moço loiro caiu estendido no chão. Aproximei-me dele, que com esforço me indicou o bolso, lembrando-me da promessa. Ao revistá-lo, deparei-me também com um bilhete de mulher. Ela marcava um encontro para aquela mesma noite e dizia que a porta da casa esperaria aberta. Perfumadas que soavam as letras, não consegui livrar-me da idéia de comparecer à entrevista no lugar do mancebo, que agora era proclamado morto por Virgílio. Olhei-o ainda uma última vez. Seria capaz de amá-lo se não o tivesse matado, foi o pensamento que me trespassou.

    Minutos mais tarde, usando por brincadeira o anel do defunto, entrava na casa de nº60 de um endereço qualquer. Delicado abraço puxou-me, às escuras, para o quarto. Cândidos lábios beijaram a jóia em meu dedo e se deram à minha boca vorazes como quem levanta, do primeiro amor, o último véu. A voz da menina aveludava-me, e sucumbi aos encantos da fada mesmo sem vê-la.

    Deixei-a adormecida e ao sair, defrontei-me com um punhal voltado para minha garganta. Pressenti novamente a morte, mas, embora não lhe definisse o rosto, a voz trêmula do agressor fez-me crer que podia vencê-lo. Brigamos como selvagens, resfolegando sobre o asfalto. Novamente fui eu quem sobreviveu ao embate. Para identificar meu agressor, que jazia morto por seu próprio punhal, carreguei-lhe o corpo até onde a luz tênue da rua acendia a calçada.

    Não sei como lhes contar o que vi sem lhes causar náuseas. Se puderem, não condenem este homem pelos eventos de uma única noite em sua vida. Não...minto! Pouco me importa já o que pensarem de mim. Fui eu quem morreu aquele dia.

    Iluminando as feições do rapaz, reconheci no infeliz com quem lutara, o filho das entranhas de minha mãe. Matara meu próprio irmão! Idéia ainda mais terrível assaltou-me. Queria ir ao quarto onde me separara da pequena amante, mas ela me observava, a poucos passos. Estava lívida. A camisola revelava parte do busto arfando descontroladamente, e a garota perdeu os sentidos. Só então entendi quem era. Tinha por nome Helena e era... minha irmã.



     Escrito por ovallejo às 23h57
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    Poema Castro

     

    Só ele me consola,

    da solidão que escolhi

    para esta vida.

    Exploro a textura do que o cobre:

    pele, tato, corpo todo

    e mergulho, sem reserva,

    em sua voz.

     

    E ele sussurra,

    Grita,

    me faz inteira,

    me enleva.

    Canta e chora,

    segredo mágico,

    só para mim.

     

    Também é para ele

    a prece que repito,

    antes de dormir:

    Senhor Deus do que é escrito,

    dizei-me vós, Senhor Deus,

    se é loucura amar assim

    um livro de poesia

    e um poeta que já morreu.



     Escrito por ovallejo às 12h58
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    Converso com ele esta noite

    Converso com ele esta noite, como o fazemos sempre, antes de dormir. E então surge, no olhar do companheiro, uma ausência que me cala.

     

    - Sabe- digo eu- a Laurinha mudou de namorado de novo! Não sei o que ela pretende, trocando assim de homem! E esse último era tão bom rapaz! Um dia ele me trouxe de presente uma orquídea. Para a melhor sogra dest

     

    Não há cumplicidade, ou resposta para minhas queixas. Em silêncio ele me grita apenas distância. Mudo de assunto. Provoco-o. Ele não gosta que falem da irmã.

     

    - Bonitas as cortinas, não acha? A Bebel costura muito bem. Sua irmã é mesmo prendada... se pelo menos soubesse ganhar dinheiro com isso. Tanto talento desperdiçado! Fica complicado para o seu cunhado, trabalhando sozinho para sustentar as crianç

     

    Por instantes creio que ele vira o rosto, mas não. Apenas me conserva distante, trancada em meu trágico monólogo. Reclamo.

     

    - Eu não ia falar nada, mas você está esquisito hoje... Não foi bom o seu dia?

     

    Por que não responde? Deve ser sério! Homem, quando tem problema, se isola. São tão diferentes de nós, que saímos logo pedindo conselho e dividindo as apreensões com o mundo. Responde, anda! Tantos anos juntos, tanta história em comum e agora ele finge que

     

    - Está chorando? O que houve? Não, agora fala, pelo amor de Deus! O que aconteceu com você? É no trabalho? É comigo? É por causa da Laurinha? Ela vai se acertar, Roberto. Na verdade o namorado nem era tão grande coisa, mas quanto ela encontrar um amor de verdade, assim que nem o nosso, ela cresce e assenta na vida.

     

    - O jantar tá pronto!

     

    - Ouviu, Roberto, ela já está chamando. Pára de chorar que não fica bem um homem assim em lágrimas! O que é que a nossa filha vai pensar? Decerto vai achar que eu briguei com você. Imagine a confusão! Brigas depois de 40 anos de casamento! Que bobeira, querido, tudo tem solução nesta vida. Conte-me o que aconteceu.

     

    - Pai...- chamou Laura da porta do quarto. Pai, de novo aí olhando o retrato da mamãe! Ela não tá aí, pai, chega, por favor, ela morreu... Não chora, pai, por favor, não chora que eu não sei o que fazer... Vem comer, vem.



     Escrito por ovallejo às 14h06
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